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Comunicação extraterrestre



 

A vida passa muito rápido. Tão rápido que nem percebemos dez, vinte, trinta anos se passarem.  Há poucos dias perdi minha mãe de forma súbita, inesperada. Passei anos de minha vida longe dela, construindo minha própria vida, como todos fazemos. Ultimamente estávamos muito próximas, mas não o suficiente para poder ouvi-la e dar-lhe a atenção que eu, hoje, acredito que deveria ter dado.
 
Talvez, se eu tivesse sido mais atenta, entenderia no silêncio que havia algo de errado com a saúde dela. Mas não fui...Por não ser médica, não soube detectar certos sinais. A dor de sua ausência ainda é muito grande, mas, ainda assim, os momentos bons e felizes que passamos juntas me tranquilizam por alguns momentos.
 
No nosso dia a dia não é nada diferente. Muitas vezes, perdemos a oportunidade de salvarmos vidas, empregos, famílias, animais. Prestar atenção sinceramente em alguém o tempo todo é uma tarefa um tanto quanto hercúlea, afinal precisamos cuidar de nossas próprias vidas também. Mas a pergunta é: ao longo de sua vida, seja em casa, no clube ou no trabalho, você presta atenção de verdade nas palavras, nos olhares e no silêncio de quem o cerca?
 
Hoje, gostaria de ter uma comunicação extraterrestre com minha mãe. Talvez um dia isso seja possível. Quem sabe?! A verdade é que, hoje, o silêncio se tornou eterno. Não ouço mais suas risadas, nem seus conselhos. Não vejo mais seu sorriso, salvo pelas fotos que insisto em carregar comigo e consultar a todo o momento.
 
Ouço pessoas reclamando que alguém fala muito ou que têm que dar atenção para fulano ou ciclano e rio disso, carregando um certo pesar. Ouvir pode ser a chave para acessar tantas informações importantes, que podem mudar nossas próprias vidas. Mas ficamos voltados para nosso mundo, para nossos problemas e esquecemos da magnitude da vida que está caracterizada por tantas coisas, cheiros, pessoas, sensações, oportunidades que existem além de nós mesmos, além de nossos próprios umbigos.
 
Vejo, atualmente, as relações humanas terem várias caras: as dos digitais, que mandam suas condolências sinceras por Whatsapp e aqueles que simplesmente enviam uma mensagem padrão de solidariedade; as dos individualistas, que nem sequer dão atenção ao que ocorre ao seu lado; as dos colaborativos, para os quais não há hora nem lugar, sempre estão ali para ajudar, e tantas outras caras por aí afora.
 
Não sou ninguém para julgar o próximo. Já faço isso com rigidez sobre mim mesma e confesso que sou dura comigo, por vezes.  O que percebo, cada vez mais, é a necessidade de haver mais diálogo para que possamos fazer o mundo ficar melhor.
 
Certa vez ouvi uma história muito interessante que lhes relato com brevidade. Um casal viveu junto por mais de 70 anos. Já doente, no leito de morte, a senhora segurou a mão do marido e disse, com voz trêmula, mas cheia de carinho: “Eu dediquei minha vida a ti e como foi bom. Durante todos estes anos, quando tomávamos café pela manhã, sempre me preocupei em deixar o miolo do pão para ti, pois era a parte que tu mais gostavas. Confesso hoje que também era a que eu mais gostava, mas preferi dá-lo a ti pelo simples prazer de vê-lo feliz.” O marido fitou-a nos olhos e com uma lágrima e um largo sorriso respondeu: “E eu sempre sorri em agradecimento, mas nunca te disse que a parte que eu mais gosto é a casca do pão. Nunca te falei, pois queria que comesses o que te fazia feliz!”.
 
Com isso, tiramos a lição de que não percebemos sinais, mesmo amando muito. Por isso, insisto que a conversa sincera, com atenção dedicada, mesmo que por segundos, pode lhe trazer informações importantes que podem fazer ambas as partes mais felizes, de forma simples.
 
Não perca a oportunidade de olhar ao seu redor e dizer palavras sinceras. Tampouco perca a oportunidade de ouvi-las. Esteja aberto para receber o que o mundo pode lhe entregar e dê o seu melhor, sempre, para terminar o dia com a sensação de missão cumprida por mais 24 horas.